Projeto de iniciação científica abre oportunidade exclusiva para mulheres

Há um padrão notável no quadro de professores do CCE: existem muito mais professores homens do que professoras mulheres. O padrão é antigo e polêmico, gerando discussões a respeito da influência de estereótipos de gênero, machismo, e políticas públicas de educação.

Pensando nisso, a professora Mayura Rubinger idealizou o projeto Químicas, Físicas e Engenheiras em Ação, Construindo Conhecimento, que tem como objetivos despertar o interesse de estudantes mulheres da Educação Básica pela Ciência e Tecnologia, melhorar a aprendizagem em Ciências Exatas nas escolas e incentivar a continuidade e o aprofundamento dos estudos das graduandas em Química, Física e Engenharia Química na Universidade. A professora falou com nosso editor, Marco Antonio Gomes,  a respeito do projeto:

Marco Antonio: De onde surgiu a ideia de um projeto de incentivo a mulheres feito por mulheres?
Profa. Mayura Rubinger: Em 2017, a Microsoft publicou uma pesquisa mostrando que um dos fatores para o menor interesse de meninas por ciências exatas é o número pequeno, em relação aos homens, de mulheres nessa área. Isso diminui a possibilidade de exemplos inspiradores para elas. De fato, nos livros didáticos, a ciência parece pertencer mais ao “mundo masculino”, uma vez que as descobertas científicas estudadas frequentemente foram feitas por homens. Em parte, isto se deve ao fato de ser relativamente recente, do ponto de vista histórico, o aumento das oportunidades para a participação de mulheres na atividade científica. Há também o preconceito de gênero, que dificulta a projeção das mulheres em muitas carreiras de ciências exatas. Mas, a participação feminina vem crescendo e sendo cada vez mais reconhecida. Por exemplo, em 2018, a cientista Frances H. Arnold recebeu o Prêmio Nobel de Química e a pesquisadora Donna Strickland, o de Física. Isto é uma grande conquista, pois entre os quase 390 ganhadores do Nobel nessas áreas, apenas oito são mulheres. Foi pensando em maneiras de estimular as meninas a se interessarem por Ciência que organizamos a equipe do projeto, com professoras e pós-graduandas da UFV. Esperamos que o convívio de alunas da educação básica com pesquisadoras e estudantes das exatas da UFV forneça exemplos (reais e próximos) de que é possível a conquista desse espaço pelas meninas.

Marco Antonio – É sabido que as mulheres são sub-representadas no Centro de Ciências Exatas e Tecnológicas da UFV. Como a Sra. acha que seu projeto pode contribuir para a maior presença de mulheres nos centros de exatas?

Profa. Mayura Rubinger – O menor número de mulheres na área de exatas é real. Mas, também é fato que essa situação vem mudando, com um aumento expressivo da contribuição das mulheres para todas as áreas da ciência, ano após ano.  Em 2017, um relatório da Elsevier sobre publicações científicas lideradas por mulheres e homens, mostra isso claramente. Há muitos aspectos envolvidos nas escolhas profissionais. Nosso projeto não vai lidar com todos eles. Mas, pretendemos contribuir em algumas frentes. Várias atividades foram delineadas para aumentar a visibilidade da ação das mulheres na Ciência e Tecnologia. Por exemplo, teremos palestras proferidas por cientistas e engenheiras nas escolas, mostras de filmes e documentários onde mulheres cientistas são protagonistas. Faremos divulgação na internet e em murais nas escolas de trabalhos científicos interessantes, desenvolvidos com a participação feminina. O objetivo é encorajar as meninas e mostrar para a comunidade que nós podemos seguir essa carreira, com sucesso. Outro ponto é aumentar o interesse dos estudantes, meninos e meninas, por Química e Física. Entre outras atividades, ajudaremos os professores de ciências das escolas participantes a realizarem experimentos quase que semanalmente para os últimos anos do Ensino Fundamental, que é quando começam a ver alguma coisa de Física e de Química. Atuaremos mais de perto com uma equipe de quinze bolsistas de Iniciação Científica Júnior, com estudos semanais e mini-projetos. Essas estudantes do ciclo básico trabalharão conosco, e com bolsistas de Iniciação Científica da UFV. Com isso, esperamos melhorar a aprendizagem em Ciências para que, caso elas se interessem pelas exatas, tenham condições de construir carreiras de sucesso. Um outro foco do projeto são as próprias estudantes da UFV. Além das bolsistas de IC, o projeto receberá voluntárias dos cursos de Química, Física e Engenharia Química. O objetivo é melhorar a formação acadêmica e incentivá-las a levar adiante os estudos, encorajando-as a prosseguirem na carreira.

mayura

Profa. Mayura Rubinger

Marco Antonio – A Sra. pensa na possibilidade de mulheres de outros cursos também poderem participar em outras edições do projeto? Pensa em estender o projeto para englobar estudantes de outros cursos?

Profa. Mayura Rubinger – Sim, claro. Esta é uma possibilidade. Neste momento há outros grupos de mulheres trabalhando na mesma direção. Unir esforços é uma boa ideia.

Marco Antonio – A Sra. pode discorrer um pouco mais a respeito de quais atividades pretende realizar no projeto?

Profa. Mayura Rubinger – Além do que já mencionei, as estudantes do ensino básico e as universitárias visitarão laboratórios de pesquisa da UFV, onde participarão de circuitos de experimentos. Organizaremos também visitas ao Museu de Ciências da Terra Alexis Dorofeef (http://www.mctad.ufv.br/) e à Sala Mendeleev (http://www.cienciaemacao.ufv.br/sala.php), uma exposição permanente e interativa sobre a Tabela Periódica dos Elementos na UFV. Se houver interesses no grupo, teremos estudos preparatórios para olimpíadas de Química e de Física.  Haverá uma oficina de construção de animações em stopmotion, onde as meninas criarão vídeos com temas científicos. Elas também aprenderão técnicas de engenharia, por exemplo, preparando papeis a partir de fibras vegetais. Enfim, a ideia é pôr a mão na massa e fazer muita coisa legal para animar essa moçada a fazer ciência.

As inscrições para o projeto vão até o dia 28 de fevereiro, e oferece três vagas pagando bolsas de R$400,00. O projeto começa em março deste ano e termina em fevereiro de 2020. As interessadas devem submeter currículo, histórico escolar, e preencher este formulário. O processo seletivo terá duas etapas, sendo a primeira uma análise documental, com resultado divulgado dia 6 de março, e a segunda uma entrevista, no Dia Internacional da Mulher, 8 de março.

 

____________________________________________________________________________________________

As fontes mencionadas pela professora são:

BAUER, M.W. Why Europe’s girls aren’t studying STEM. Relatório da MICROSOFT, 2017. Disponível em: <https://news.microsoft.com/uploads/2017/03/ms_stem_whitepaper.pdf&gt; Acesso em 29/09/2018

ELSEVIER, Gender in the Global Research Landscape – Analysis of research performance through a gender lens across 20 years, 12 geographies, and 27 subject areas. Elsevier report, 2017. Disponível em: < https://www.elsevier.com/research-intelligence/campaigns/gender-17&gt; Acesso em 29/09/2018

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s