FEBEAPÁ: de comer ou de passar no cabelo?

Quando a gente começa a falar de livro, é normal pensarmos nesse tipo de entretenimento como se fosse uma coisa refinada, rebuscada, reservada apenas para aqueles cujas mentes sobreviveram à nossa época de constantes distrações transmitidas em mil telas ao mesmo tempo. Por um momento, nossa cabeça é transportada para uma biblioteca velha, de madeira, com estantes até o topo da enorme construção, mal iluminada e intimidadora. Infelizmente, a idéia de ler um livro evoca em muitos uma imagem que nos isola, e nos faz interpretar a leitura como algo distante.

Entretanto, eu particularmente acho que essa idéia também depende muito do gênero textual em questão, e existe um deles que jamais evocou, pelo menos em mim, a idéia de distância ou antiguidade: a crônica. A crônica vem justamente para nos lembrar de que os livros são sim, no fundo, um retrato de realidades, tão próximas como a nossa, tão banais como a nossa e nos mostram que muitos casos que a gente já ouviu mereciam e muito estarem eternizados nas páginas de um livro.

É justamente esse um dos grandes motivos da coleção FEBEAPÁ ser tão boa. O autor Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo de Sérgio Porto, escreve muitas histórias engraçadíssimas e de fácil reconhecimento. São “causos” repletos de ironia e sarcasmo implícito, que só são notados pelo tom que a nossa própria voz faz dentro da nossa cabeça quando lê. É impressionante por exemplo, a capacidade que ele tem de nos fazer rir sem explicitamente armar a história para que a conclusão estale e provoque gargalhadas. Algumas são relatos que não tem nada demais quando escritos, mas ganham vida quando lidos.

febapá

Mas esse nem é o aspecto mais importante da coleção FEBEAPÁ. A estranha sigla representa o “Festival de Besteiras que Assola o País”, e além das crônicas, guarda também inúmeros casos de fatos políticos absurdos ocorridos na época em que foi escrito. Nesse quesito, o livro provoca um agradável sentimento de “rir pra não chorar”, acompanhado de uma leve negação com a cabeça. Apesar de ser apresentada de forma leve e tranquila, FEBEAPÁ serve de alerta para muitos abusos e excessos cometidos em nome da “redentora” (como opróprio autor ironicamente denomina a ditadura militar) e nos acorda para a estupidez do regime, um despertar extremamente necessário para todos os membros da sociedade brasileira.

Dessa forma, a coleção FEBEAPÁ reune muitos aspectos da genialidade de Sérgio Porto. Através do seu alter ego Stanislaw, ele consegue nos divertir e nos alertar ao mesmo tempo, fazendo com que a gente ria não da própria desgraça, mas de desgraças tão semelhantes à nossa, especialmente se considerarmos a atual “conjuntura” (palavra muito utilizada por ele). Para entender melhor o humor do livro, é necessário se imaginar um pouquinho no Brasil recém abalado pela tomada do poder pelos militares, mas isso não limita de forma alguma o entretenimento proporcionado pelo livro. Além disso, o posfácio sério analisa o estilo de escrita e enriquece ainda mais a experiência, fazendo com que percebamos coisas que perdemos entre risadas. Recomendo e muito a leitura de FEBEAPÁ e de outros livros de Stanislaw Ponte Preta.

 

Por Marco Antonio Ferreira Gomes

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