Cada Macaco no seu Galho, ou Não

Imagine uma árvore imensa, maior do que qualquer uma já vista, que dá todas as frutas do mundo. Cada fruta representa um caminho, uma escolha, um curso para se escolher. Uma árvore cheia de troncos, ramificações, caminhos de flores e espinhos levando a infinidade de destinos a serem escolhidos. Todos nós já nos deparamos com essa planta quando escolhemos nossos cursos, e hoje, através do telefone, meus pais acabaram por me colocar de novo a sua frente. Quando me perguntaram se eu realmente achava que tinha escolhido certo, novamente eu era intimidado por seus infinitos frutos, cada um representando uma possibilidade. Uns eu com certeza já tinha descartado (nunca quis ser médico), mas de repente, o fruto da engenharia de produção com o qual me agarrava tanto perdeu um pouco de seu apelo, e os outros ao seu redor ficaram mais apetitosos.

Aos dezessete anos, quando optei por esse fruto (mas ainda não tinha mordido) eu via sua casca com um brilho fascinante, um convite para um suco delicioso armazenado atrás daquelas paredes celulares. As folhas verdinhas, cheias de clorofila, eram sustentadas por galhos firmes, conferindo robustez e segurança a minha escolha. Mas quando o mordi, uma surpresa. Assim como uma romã, com sementes doces e uma casca amarga, meus dentes penetraram a superfície com vontade, mas as papilas gustativas já reclamavam. Confusas, sentiam o gosto bom das sementes, matérias específicas cheias de conteúdos que me interessavam, mas também o amargo das matérias de base, com seus cálculos e intermináveis físicas. Cada mordida era recheada de sabores bons e ruins, cada período uma mistura de gostos e desgostos.

Minha refeição não é das mais agradáveis. Até hoje batalho para aprender a comer essa fruta, que para uns parece ser tão gostosa e para outros, como eu, difícil de engolir. E o problema está justamente na mistura dos sabores. Se ela fosse completamente ruim, eu já teria parado de comer. Entretanto, o docinho que fica das sementes, das matérias interessantes, da autonomia de morar em Viçosa e de tudo que posso desenvolver aqui, parece gerar certa esperança de que, ao terminar de comer, eu sinta apenas um gosto bom de formatura. Vejo outros degustando desse lanche com tanta facilidade que fico com certa raiva e tristeza por não conseguir também. No fundo, acabo depositando boa parte da minha felicidade na esperança e vontade de um dia conseguir desfrutar dessa escolha sossegado.

E é daí que surge a grande dúvida. Será que uma fruta mais fácil de comer me deixaria mais feliz? Será mesmo que a escolha por essa romã que eu não aprendi a comer vai saciar meu apetite? As vezes seria melhor optar por outra, mais parecida com uma laranja, que com um toque do canivete seria descascada sem esforço e exporia seus gomos açucarados para serem ingeridos. As vezes outra área do conhecimento agradaria mais ao meu paladar. As vezes o açúcar nunca se sobreporá ao ácido, e depois de finalmente dominar meu banquete, eu ainda fique com fome. A ansiedade diante de tanta fruta acaba provocando indigestão.

Não creio que eu seja o único estudante pendurado comendo todo desengonçado, fazendo cara feia. Vejo amigos que escolheram limões, mas infelizmente estão chupando o azedo ao invés de fazer limonada. A imponência exercida pelo tamanho dessa árvore e sua variedade nos gera pensamentos aterrorizantes, que acabam prendendo muitos macacos aos seus respectivos galhos. Será que apenas uma escolha pode me fazer feliz, ou será que no fundo, tanto faz? Será que eu só vou gostar de uma única fruta, ou existem várias que vão me agradar? O que eu faço com essa que eu já comecei a comer?

Por mais que eu também esteja inseguro de cair do meu galho, é preciso falar a verdade tão difícil de se interiorizar. No fundo, o que nos faz verdadeiramente felizes é a escalada da árvore a procura de um sabor cada vez mais doce, e não os sabores das frutas. Existem várias que podem satisfazer nosso paladar. As nossas vidas não são feitas de apenas um caminho, e nosso livre arbítrio permite que subamos em qualquer galho, vários galhos, para experimentar dos mais diversos sabores desses ramos tão extensos. A felicidade surge quando exploramos esses troncos com leveza, sem culpa de procurar aquilo que nos agrada mais profundamente. Não devemos ter medo de largar, trocar ou trancar nossos cursos, saltando felizes e satisfeitos agarrados em cipós.  Talvez até seja nossa descendência do macaco que nos deu essa sorte, nos presenteando com esse destino ironicamente composto de livre arbítrio.

Por Marco Antonio Ferreira Gomes

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